Para quem convive com a fragmentação da percepção, o ato de cozinhar, escrever ou projectar não pode ser uma deriva. Tem de ser uma construção. O protocolo P.A.R.T.E. é uma arquitetura de resistência: cinco estágios que transformam a execução mecânica num acontecimento ontológico.
1. P — Paragem (O Isolamento)
A criação exige um vazio prévio. Começo por desligar o ruído do século — o telemóvel e os ecrãs são silenciados. Pratico o Pranayama: três inspirações completas e profundas. É o corte epistemológico; desligo-me do mundo para poder habitar, verdadeiramente, o metro quadrado onde a vida vai acontecer.
2. A — Arquitetura / Mise en place (A Ordem)
Antes da mão operar, o olho ordena. É a Mise en Place absoluta. Disponho utensílios e matérias num rigor geométrico onde nada é acessório. Observo o estaleiro montado. Esta ordem exterior não é estética, é funcional: é o prelúdio da clareza mental necessária para a transformação.
3. R — Ritual (A Execução em Flow)
Entro no domínio do gesto único. Aqui vigora a economia de movimento e a dedicação a cem por cento. No fluxo do ritual, sigo a lição de Francis Bacon: o erro não é uma falha a evitar, mas uma metamorfose estética. O acidente — a mancha, o desvio da faca — é integrado como uma verdade nova que confere alma à obra.
4. T — Transformação (O Acontecimento)
A técnica deixa de ser ferramenta e passa a ser linguagem. O cozinheiro transforma-se no que cozinha. O processo inclui a Prova Cega — uma purificação do paladar para reencontrar a essência do sabor — e culmina no Empratamento Teatral. A comida deixa de ser nutrição para ser a encenação de um encontro entre o homem e a matéria. É a entrega e a partilha.
5. E — Epílogo (Limpeza e Consciência) de
O ciclo fecha-se no restauro do vazio. Limpo a bancada e os instrumentos com o mesmo rigor com que os usei. O serviço só termina quando a ordem regressa. O selo final é a escrita de três linhas — um Haiku — que cristaliza a transformação ocorrida na consciência.
A Síntese no Epílogo
Cada tarefa concluída sob este protocolo deixa um rasto de clareza. O Epílogo garante que a experiência não se dissolve no esquecimento.
Exemplo (Após a Transformação de um prato):
Língua em escuro,
o sal desenha o mapa,
sou o que criei.
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