Prelúdio para uma Gastronomia Performativa
I. O AXIOMA CENTRAL
A cozinha não é um serviço; é uma performance ontológica. O ato de transformar a matéria é a ferramenta primordial para combater a fragmentação da percepção e a dispersão do ser. Onde existe rigor técnico, existe coesão existencial.
II. A TRINDADE ÉTICA
Toda a ação dentro deste protocolo está subordinada a três leis inegociáveis:
- Regionalismo: A aceitação do território como destino. O produto local é o interlocutor de uma cultura que se recusa a ser globalizada.
- Desperdício Zero: A ascese da economia circular. O resíduo é uma falha intelectual; na natureza e no ofício, tudo é potência de transmutação.
- Nose to Tail: O respeito absoluto pela vida. Utilizar a matéria na sua totalidade é um ato de reconhecimento da dignidade do que é transformado.
III. O MÉTODO P.A.R.T.E.
A criação exige um rito. Nenhuma obra — seja um prato ou um ensaio — terá validade sem percorrer o ciclo:
1) Paragem: O silêncio que precede o gesto.
2) Arquitetura: O desenho da estrutura e o cálculo da forma.
3) Ritual: A repetição disciplinada do ofício.
4) Transmutação: A passagem pelo fogo e pela síntese.
5) Epílogo: O arquivo, o fecho e a memória.
IV. O ARTÍFICE-INVESTIGADOR
Rejeitamos a separação entre o suor e o intelecto. O cozinheiro é um etnógrafo no seu laboratório de campo; o estudante de humanidades é um alquimista na sua cela. A faca e a pena são extensões da mesma vontade de ordem.
V. O FIM ÚLTIMO
O Deep Cooking é a transmutação da dor, da ansiedade e da fragmentação em rigor estético. É a busca pela profundidade num mundo de superfícies.
Cozinhar é uma forma de pensar a matéria. Escrever é uma forma de cozinhar a ideia.