A Verdade nas Mãos: O que o Gás não Queima

No palco do show cooking, perante o burburinho do hotel, a sardinha chega-me às mãos como por sorteio. Algumas ainda brilham, guardando a memória do mar, mas outras aparecem baças, olhos opacos e de pele despida pelo gelo industrial. Ali, enfrentando o mundo, a minha mente foge por instinto para as traineiras de cerco e para o carvão dos assadores de rua. Hoje o fogo é a gás, mas o respeito pelo peixe é o mesmo de quando eu era apenas mais um nessa rua.

Trabalho sem rede. Faltando a grelha, as minhas mãos ficam expostas ao lume mais tempo do que os dedos aguentam. O sal de sempre ataca as minhas feridas quando a gordura pinga e as pequenas labaredas levantam. Sinto o suor escorrer. teimando em escorrer sobre os olhos. Nesse momento, o ruído das perguntas dos clientes desaparece. O desconforto faz o ego desistir; não há espaço para parecer, apenas ser (cozinheiro). Guio-me pelo seguinte sinal: o olho da sardinha torna-se uma pequena esfera branca. Será que a carne, por dentro, ainda está húmida?

Cozinhar assim é um risco. Entrego o prato sem poder provar, indefeso perante quem come. Hoje, um cliente que sabia distinguir – o mar do gelo – escolheu a sua sardinha e voltou para repetir. Naquele gesto, reconhecimento. Não procurava a perfeição, procurava a verdade. No final, percebi que mesmo stressado e com as mãos a arder, a minha história transpareceu. O que lhes dei não foi apenas peixe; foi a presença de quem já cercou o mar de prata e sabe que, ao fogo, a mão nunca mente.


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