Dossier de Conceito Gastronómico


1. O MANIFESTO (A Fundamentação)

O ato de cozinhar é redefinido como uma intervenção ontológica. O nosso objetivo não é a satisfação do apetite, mas a interrupção do sujeito.


Cozinha Holística: A comida é apenas uma camada de uma experiência que envolve teatro, ciência e ética.
Razão Estética: O prato é um veículo de conhecimento sensível, onde o pensamento se
torna comestível.
Estética do Abjeto: Usamos o estranhamento para dissolver as fronteiras entre o “Eu” e o
“Outro”.


2. A DRAMATURGIA SENSORIAL (O Menu)


A refeição divide-se em três atos, desenhados como uma jornada de transformação.


Ato I: A Crise (O Abjeto): Confronto visceral.
Pratos que desafiam a perceção de higiene e identidade (Ex: Língua de Sangue).
Ato II: A Escuta (A Razão Estética): Silêncio e atenção plena.
Foco na vibração da matéria e na fenomenologia do sabor (Ex: O Ritmo do Grão).
Ato III: A Alquimia (O Holístico): Transmutação e Ética.
A união entre a alta tecnologia culinária e a consciência social (Ex: A Semente da
Compaixão).


3. O DISPOSITIVO DE PERCEPÇÃO (Arquitetura e Design)


O espaço é um mosteiro laico, um laboratório de sentidos.


Luz: Evolução do chiaroscuro dramático para a claridade solar, guiando o estado de espírito
do comensal.
Som: Frequências bio-ressonantes (432Hz) e isolamento acústico para permitir a “escuta do
mundo”.
Materiais: Pedra, betão, micélio e madeira carbonizada. O luxo reside na crueza da
matéria.

4. O PROTOCOLO DO “AUTOR MORTO” (Serviço)


O Chefe é uma ausência presente; a equipa de sala são os mediadores do ritual.


O Mediador: Atua com neutralidade e precisão coreográfica. Não “explica” o prato; lança
provocações intelectuais.
Linguagem: Focada no silêncio e na brevidade. O serviço recua para que o comensal
possa “nascer” como o verdadeiro intérprete da obra.
A Despedida: O cliente não recebe uma conta, mas um objeto de memória (uma semente,
um poema, um resíduo) que prolonga a experiência para fora do restaurante.



NOTAS TÉCNICAS PARA O CHEFE


Fermentação: Usar como símbolo de transmutação (vida que nasce da morte).
Tecnologia: Esferificações, criogenia e vácuo devem ser invisíveis no resultado final,
servindo apenas para revelar a essência do ingrediente.
Ética: O ingrediente deve ter origem rastreável e impacto positivo. Sem ética, não há
estética


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